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PO 50 anos caminhando junto à classe trabalhadora

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Entrevista com Jardel Lopes, da coordenação nacional da PO

“Atua como presença da Igreja junto à classe trabalhadora e presença da classe trabalhadora na Igreja, no compromisso de agir com o povo e não para o povo, com o objetivo de resgatar a cidadania plena e o protagonismo dos/as empregados/as formais, informais e desempregados/as, na construção da sociedade justa e solidária, tendo como chave a questão do trabalho…”

Assim se auto define a Pastoral Operária (PO), pastoral social da Igreja Católica fundada em outubro de 1970 como um grito em defesa dos trabalhadores e trabalhadoras que, naquele momento, resistiam à ordem ditatorial do “cale-se”.

Cinco décadas depois da Missa pelo Salário Justo (presidida pelo então arcebispo de São Paulo, Agnelo Rossi), considerada um marco na consolidação da Pastoral Operária em âmbito nacional, demonstra-se necessário refletir não apenas sobre a caminhada da PO como também sobre a realidade daqueles/as que são a razão de sua existência: as trabalhadoras e trabalhadores.

“… a classe trabalhadora vive mais um dos seus momentos de mal a pior, como em outros momentos na história, porém com sua particularidade de hoje. Não bastasse a negligencia dos governos, com redução e cortes de direitos, por meio da reforma trabalhista, terceirização irrestrita, reforma da Previdência, a pandemia acelerou o desemprego e a precarização do trabalho em larga escala”. A afirmação é de Jardel Lopes, coordenador nacional da Pastoral Operária, com quem conversamos sobre os 50 anos da entidade.

Frente às profundas transformações que a classe trabalhadora atravessa, no cenário de uberização das relações de trabalho, Jardel demonstra a humildade que orienta o pensamento cristão ao dizer que “a Pastoral Operária não tem respostas, mas está atenta, estudando, buscando conhecer, para encontrar respostas conjuntamente de modo que possa assegurar o direito diante desse novo contexto”.

As palavras pronunciadas por Jardel não são à toa. “Atenta”, “estudando”, “buscando conhecer”, “conjuntamente”. São, certamente, expressões que caracterizam o fundamental trabalho da Pastoral Operária nos territórios onde atua.

E essa presença, como nos diz Jardel, é cada vez mais comum em bairros e comunidades periféricas, com grupos em maior situação de vulnerabilidade, e não tanto em sindicatos. A explicação está na própria realidade: “houve momento em que a PO contribuiu muito na criação e formação de quadros sindicais, todavia houve muito avanço nesse campo de representação da classe pelos sindicatos e centrais sindicais”, frisa.

Além das mudanças na composição da classe trabalhadora brasileira, nessa entrevista concedida à equipe de comunicação da Rede Jubileu Sul Brasil, o coordenador da Pastoral Operária, fala sobre as principais ações desenvolvidas pela organização nos últimos anos e também sobre as articulações com outras entidades de defesa dos direitos dos/as trabalhadores/as.

Leia a íntegra da entrevista.

Rede Jubileu Sul Brasil: A Pastoral Operária está completando meio século de trabalho junto aos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. Ao completar 50 anos, como a Pastoral Operária compreende a realidade da classe trabalhadora brasileira hoje? Quais as principais dificuldades enfrentadas por essa expressiva parcela da população?

Jardel Lopes: A PO entende que a classe trabalhadora vive mais um dos seus momentos de mal a pior, como em outros momentos na história, porém com sua particularidade de hoje. Não bastasse a negligencia dos governos, com redução e cortes de direitos, por meio da reforma trabalhista, terceirização irrestrita, reforma da previdência, a pandemia acelerou o desemprego e a precarização do trabalho em larga escala. Entendemos como precarização do trabalho, e esse foi tema do 1º de maio deste ano, a uberização, a redução de direitos, rebaixamento de salário, a insegurança do trabalho, carga horária extensas e exaustivas.

Seguramente, a maior dificuldade é o desemprego. Não há coisa pior que não ter como comprar comida, pagar o aluguel. Para isso, alguns vivem pedindo nos semáforos ou mesmo sobrevivem de doações de cestas básicas. São 65 milhões de pessoas vivendo de apoio do auxilio emergencial enquanto 37 milhões vivendo do seu salário. Dentre esses, ainda há aqueles/as que tiveram redução no rendimento salarial, alguns chegando até 63%. Logo em seguida vem a exploração de trabalhadores e trabalhadoras, jornadas exaustivas e salários rebaixados, insuficientes para viver com dignidade.

Outro dia conversei com um jovem que trabalha 76 horas semanais, com uma folga na semana e um domingo por mês, enquanto que a CLT estabelece um limite de 44 horas semanais e o que excede disso deve ser pago como horas extras ou vai para banco de horas. Com isso, não sobra tempo, sobretudo para a juventude estudar, desenvolver algum potencial artístico ou mesmo para o lazer tão necessário para o bem estar. Portanto, apenas as empresas lucram com a “modernização da CLT” como era chamada a reforma trabalhista, pelo ex-presidente Michel Temer.

Outras grandes dificuldades são a fragmentação da classe trabalhadora e a baixa representatividade das organizações de classe.

Rede Jubileu Sul Brasil: Parte cada vez mais crescente da classe trabalhadora está sob um regime que alguns especialistas chamam de uberização das relações de trabalho, em que poucas e grandes empresas concentram o mercado sem qualquer responsabilização com direitos trabalhistas. Como você entende esse fenômeno da uberização e quais os desafios às organizações que, assim como a Pastoral Operária, buscam lutar pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras?

Jardel Lopes: A uberização é, sem dúvida, o novo fenômeno no mundo do trabalho. O grande problema que vem junto com a uberização é a negligencia de direitos, que custaram longos anos e duras lutas para conquistar. Direitos esses que outrora colocaram limites à exploração da classe trabalhadora por um patronato capitalista e escravagista. E repentinamente uma empresa multinacional cria novos métodos e desrespeita completamente o contrato social de trabalho que uma sociedade construiu.

Diante da uberização, resta às organizações de classe também se reorganizarem. Certamente, a greve dos entregadores aponta um caminho de luta desses trabalhadores, bem como para o problema da uberização sem direitos. O modelo Uber talvez seja algo sem retorno nesse século 21, porém é possível colocar essas empresas submissas aos direitos da classe trabalhadora brasileira e não os direitos em submissão a essas empresas, de modo que elas não cumprem.

A Pastoral Operária não tem respostas, mas está atenta, estudando, buscando conhecer, para encontrar respostas conjuntamente, de modo que possa assegurar o direito diante desse novo contexto e evitar um retorno à escravidão dos novos tempos.

Rede Jubileu Sul Brasil: Considerando essas mudanças nas relações de trabalho e na própria dinâmica da classe trabalhadora, quais ações a Pastoral Operária tem desenvolvido nos últimos anos?

Jardel Lopes: “A Pastoral Operária é a presença da igreja na classe trabalhadora, e presença da classe trabalhadora na igreja”. Para que essa presença seja qualificada, como ela é reconhecida historicamente, a PO acredita muito na formação da sua militância, a partir dos princípios do Ensino Social da Igreja, da Teologia do Trabalho, da Espiritualidade do Trabalho. E a PO continua com essa mesma perspectiva, apesar da dificuldade de renovação de quadros, da inflexão da igreja em relação ao mundo do trabalho.

A análise da realidade e a formação a partir da realidade têm sido as ações encampadas pela PO. Para isso, temos produzido materiais de formação e mobilização nessa linha da defesa dos direitos. Hoje a PO está mais inserida em comunidades, com alto índice de vulnerabilidade social e pobreza. A presença da PO junto a classe trabalhadora hoje é mais na comunidade do que no sindicato. Houve momento em que a PO contribuiu muito na criação e formação de quadros sindicais. Todavia, houve muito avanço nesse campo de representação da classe pelos sindicatos e centrais.

Temos marcado presença também em meio à economia popular solidaria, na perspectiva de contribuir na organização, articulação, formação de empreendimentos solidários.

Recentemente, com a pandemia, desenvolvemos ciclos de formação de modo virtual, com representantes de diversos níveis. São mais de 100 pessoas implicadas em três ciclos de formação que estão em curso atualmente.

Rede Jubileu Sul Brasil: De que forma a Pastoral Operária se articula com outras organizações de defesa dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras?

Jardel Lopes: A PO articula em rede com diversas outras organizações, sejam elas das pastorais sociais ou movimentos populares, tanto em nível nacional das organizações quanto nos locais onde têm equipes organizadas nas bases das dioceses/municípios.

No que se refere à formação na ação, a principal ação é a presença de militantes da PO em outras organizações como nos sindicatos, alguns em cargos de direção. Também nos movimentos populares, ou mesmo um quadro de assessorias contribuindo para formação de outras organizações pastorais nas bases.

A Rede Jubileu Sul Brasil é uma dessas organizações que a PO está inserida desde a fundação, compondo hoje também o quadro de direção da Rede.

Acompanhe a semana de programação de atividades da Pastoral Operária

Semana da PO – de 25 a 30 de outubro
28/10, às 20h – Ao vivo (live) sobre a Caminha da PO nesses 50 anos

30/10
13h – Ato de pintura do chão onde Santo Dias foi assassinado
20h – Ao Vivo (live) sobre a Memória de Santo Dias.

Acompanhe as transmissões pelo Facebook e YouTube da PO

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