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O trabalho nas semanas sociais brasileiras

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As Semanas Sociais surgiram na Igreja do Brasil num momento crucial para a Igreja e a sociedade, no início da década de 1990. Por um lado, com o avanço das políticas neoliberais, desemprego e por outro com as mudanças internas na própria Igreja institucional, com avanço do “conservadorismo”, que refletiu nas pastorais sociais.

Deste modo, as Semanas Sociais vieram como uma força vital de articulação das forças sociais e políticas em prol de um levante de diversos segmentos de pastorais sociais, movimentos sociais, organismos, igrejas, universidades. A conjuntura apontou a necessidade e importância de realizarem trabalhos em conjunto. Portanto, das cinco Semanas Sociais Brasileiras, três aconteceram na década de 1990.

Como o contexto nesse período era um enfrentamento às políticas neoliberais, e suas consequências (como o desemprego, flexibilização da legislação, miséria), a abordagem sobre o trabalho foi o que encabeçou a 1ª Semana Social, a partir do tema “Mundo do trabalho, desafios e perspectivas”. Nesse mesmo ano, 1991, o tema da Campanha da Fraternidade da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) foi: “Fraternidade e mundo do trabalho”, cujo lema foi: “Solidários na dignidade do trabalho”.

A Igreja retoma seu papel profético de denunciar as injustiças e assume em sua ação evangelizadora aquilo que São João Paulo II, uma década antes, propôs: “o trabalho humano é uma chave, provavelmente a chave essencial, de toda a questão social” (Carta Encíclica Laborem Exercens, de setembro de 1981).

As Semanas Sociais também trouxeram temas, de grande mobilização social, desde as bases locais até o nível nacional. Todos denunciando as questões sociais, na perspectiva de construir mudanças políticas, bem como fortalecer as organizações sociais.

A 3ª SSB (1997-1999) abordou o resgate das dívidas sociais, evidentemente lá se encontra o desemprego, a desproteção do/a trabalhador/a, má remuneração, entre outras dívidas que afetam diretamente o trabalho.

Nesse período, mais uma Campanha da Fraternidade da CNBB, em 1999, tratou sobre “Fraternidade e os desempregados”, refletindo o lema: “Sem trabalho, por quê?” A Igreja assumiu a pauta do trabalho, não faltava justificativa social e eclesial. Na carta Encíclica Centesimus Annus, do Papa São João Paulo II, sobre os 100 anos da Rerum Novarum, destaca: “Simultaneamente o trabalho tem uma dimensão social, pela sua íntima relação quer com a família, quer com o bem comum” (LE, 06). Que relação tem hoje o mundo do trabalho com a família e o bem comum?  O Papa Francisco nos lembra que “sempre houve uma amizade entre a Igreja e o trabalho, a partir de Jesus trabalhador. Onde houver um trabalhador ali estarão o interesse e o olhar de amor do Senhor e da Igreja. Penso que isto é claro” (visita pastoral a Gênova, 27 de maio de 2017).

Na 4ª e 5ª SSB, o tema do Trabalho não aparece tão perspicaz. Talvez por que estávamos num período de governos mais progressistas, até mesmo chegamos a menor taxa de desemprego do país. O que não significa que não houveram iniciativas de flexibilização das leis trabalhistas. Todavia, as pastorais e movimentos também se encontravam com mais dificuldades de lideranças, novos quadros, apoio da Igreja institucional.

Em 2014, o Papa Francisco convidou os momentos populares para escutá-los, em Roma e os afirma: “Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos”. E cá estamos nós, num contexto de avanço da política neoliberal, com metodologias fascistas, entregando o país aos Estados Unidos. E a classe trabalhadora enfrenta um desemprego avassalador, em meio a pandemia da Covid-19, com mais pessoas desocupadas do que pessoas trabalhando, com a legislação do trabalho arruinada e perdendo direitos, após aprovação da terceirização irrestrita, reforma trabalhista, emenda constitucional de teto dos gastos, reforma da previdência, bem como uma precarização sem precedentes.

Portanto, é notório a importância de explorarmos na 6ª SSB a temática do Trabalho, como parte dos três Ts do Papa Francisco. Como elemento “chave da questão social”, para garantir segurança na economia, soberania dos povos, e uma democracia participativa. E a Igreja do Brasil em suas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora 2019-2023, destaca: “a evangelização do mundo urbano não pode prescindir da questão do trabalho. (…) A solidariedade com quem sofre as consequências do desemprego e do trabalho precário, é, pois, uma expressão importante da caridade, devendo se manifestar pela atuação organizada dos cristãos leigos e leigas” (nº 106).

Jardel Lopes

Mestre em Teologia, especialista em Gestão de Projetos

Coordenador da Pastoral Operária Nacional

Articulador das Pastorais Sociais – Sul 2

Membro da Executiva das Pastorais Sociais da Comissão 8 e da Coordenação da 6ª SBB

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