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A economia de Francisco e Clara – um olhar da Pastoral Operária

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Sempre que falamos na necessidade de uma transformação, diversas perguntas se colocam: o que é que precisa ser transformado? Por que razões? Qual é o sentido da transformação que desejamos? As respostas oferecidas a essas questões são determinantes, pois definem tanto o processo de crítica ao que precisa ser mudado quanto de construção do novo, que irá substituí-lo.

No evento internacional “Economy of Francesco” (Economia de Francisco), realizado no último fim de semana em resposta a um chamado do papa Francisco, não haveria de ser diferente. Atendendo à convocação do pontífice, centenas de jovens e especialistas de todo mundo se reuniram, virtualmente, para apresentar propostas de transformação do atual sistema econômico dominante – um sistema repetidamente denunciado pelo papa como responsável pela miséria de inúmeros seres humanos e pela destruição da nossa casa comum, em benefício de uma minoria entorpecida pelo individualismo e pela ganância. Todavia, se a rejeição a este estado de coisas era uma unanimidade entre as pessoas participantes, as razões para tal rejeição variaram de modo significativo.

Há quem acredite que o capitalismo está funcionando mal, e que bastariam apenas alguns ajustes superficiais para que seus efeitos perversos se dissipem. Há ainda quem veja na causa de tais perversidades apenas um problema de ordem moral, de modo que bastaria que a minoria beneficiada pelos processos destrutivos fosse conscientizada a seu respeito, e teríamos imediatamente um mundo melhor. Nesta mesma linha, há quem afirme que não existem causas ou mecanismos sistêmicos por detrás das estruturas de pecado: sob tal ótica, haveria apenas indivíduos isolados em suas escolhas, e na medida em que estes agissem em sua esfera individual (família, emprego, etc.) as grandes dinâmicas de morte seriam automaticamente interrompidas.

O papa Francisco, porém, parece enxergar tais problemas de outra maneira. No discurso que leu no encerramento do encontro, encontramos as seguintes palavras:

“Precisamos de grupos dirigentes comunitários e institucionais que possam enfrentar os problemas sem ficar prisioneiros deles e das próprias insatisfações, e assim desafiar a submissão — muitas vezes inconsciente — a certas lógicas (ideológicas) que acabam por justificar e paralisar todas as ações perante as injustiças. Recordemos, por exemplo, como bem observou Bento XVI, que a fome «não depende tanto de uma escassez material, como sobretudo da escassez de recursos sociais, o mais importante dos quais é de natureza institucional»[6]. Se fordes capazes de resolver isto, tereis o caminho aberto para o futuro. Repito o pensamento do Papa Bento: a fome não depende tanto da escassez material, como sobretudo da escassez de recursos sociais, o mais importante dos quais é de natureza institucional.”

Através do exemplo da fome, portanto, encontramos a necessidade de enxergar a crise que atravessamos de maneira sistêmica, agindo na especificidade de nossos contextos e movimentos, mas sempre de uma perspectiva coletiva e integrada. Sob tal ótica, umas das mais importantes questões estruturais do atual sistema econômico é, sem dúvida, a questão do trabalho. Os processos que o afetam nos dias de hoje – desemprego, perda de direitos, precarização, uberização, automatização – não podem ser levados conta sem atentar para a sua natureza sistêmica, independentemente da boa vontade desta ou daquela empresa: estão vinculados a dinâmicas gerais, que abrangem o Brasil e o mundo em um novo ciclo de acumulação capitalista e de financeirização. São elas, inclusive, que unem os destinos das mais diversas pessoas no nosso e em outros países, fadadas a enfrentar os mesmos problemas e, talvez, a elaborar estratégias similares de luta conta eles.

Do ponto de vista de uma pastoral centrada no problema do trabalho, o desenvolvimento de uma economia verdadeiramente voltada para as pessoas e para um convívio harmonioso com a Criação jamais poderá ser atingido se não encararmos de frente os empecilhos  estruturais que nos mantêm tão longe deste ideal. Todo esforço de transformação é decerto bem-vindo, mas devemos cuidar para que boas intenções não acabem servindo, pelo contrário, apenas para nos iludir, preservando as causas estruturais da exploração das pessoas e do planeta sob o pretexto de mudanças meramente superficiais.

Por: Pedro Augusto | Pastoral Operária de São Paulo 

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