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Síntese do módulo 3: A Igreja frente aos desafios  do mundo do trabalho

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Professor Elio Gasda  nos trouxe  reflexão do tema a partir de duas fontes:  a Sagrada Escritura e a Doutrina Social da Igreja. Fidelidade ao Evangelho e fidelidade à realidade. São questões indissociáveis.

A Sagrada Escritura

O professor afirma que a Bíblia é o farol orientador da vida cristã. Temos o Antigo testamento e o Novo testamento. E os escritores da Bíblia se confrontaram com a realidade do trabalho, sendo que na Bíblia encontramos duas formas principais de organização do trabalho: Sociedade familiar e Sociedade monárquica.

– Sociedade familiar: (nos textos do Pentateuco) Com os patriarcas.  Os meios econômicos são voltados para a sobrevivência das famílias. Eram unidades familiares, dedicadas à pecuária, agricultura. Não havendo sistema administrativo burocrático, os problemas eram resolvidos pelos anciãos e juízes. Foi a sociedade familiar, depois tribal.

– Sociedade monárquica: A partir de Davi e Salomão, se estabiliza a monarquia, com o sistema tributário.  Havia o sistema administrativo que cobrava dos trabalhadores, pagamento de impostos para pagar os luxos da aristocracia e tudo mais da administração real, militar, civil. Tudo mantido pelo trabalho explorado. Surgem classes sociais muito bem definidas: Agricultores pobres, aristocracia poderosa, latifundiários. Os pobres vão se afundando na miséria, por causa dos altos impostos. Havia desemprego, fome, doenças, famílias expulsas da terra. Assim era a realidade do povo de Israel; realidade porém, denunciada pelo profetas como Amós, Isaías, Jeremias e outros.

– Mensagem da Sagrada Escritura sobre esta realidade. Três referências:

1- Lei do sábado – mandamento do descanso sabático foi instituído em defesa do pobre. Tem função libertadora. É a lei do descanso. Tem duas versões: No livro do Deuteronômio5, 12 a 15 é um bom exemplo, no qual cita que no sábado não se faz trabalho algum, nem mesmo os animais. Relaciona a lei do sábado com a experiência da libertação do povo do Egito. O povo de Israel brota de um grupo de trabalhadores; esta é a origem do povo de Israel. Segunda versão está no livro do Êxodo,  20, 8 e tem como motivação a criação, relacionando o sábado com o repouso de Deus no sétimo dia da Criação. Trabalho e descanso é o fazer de Deus, a ação de Deus, que gera liberdade e gera vida. Não se entende o trabalho sem o sétimo dia.

2- Reino de Deus – o Salvador da humanidade é um trabalhador  e filho de uma família de trabalhadores. Segunda pessoa da Santíssima Trindade se assume em sua classe social: Jesus vive a opressão dos trabalhadores. Assume o trabalho como realidade e não só em teoria. Muitas parábolas de Jesus usam o trabalho para explicar o Reino. Além disso, Jesus escolhe grupo de trabalhadores para acompanhá-lo e formarem a nova comunidade, alternativa ao Império. Se a libertação do povo do Egito era trabalho do Pai, o Reino era o trabalho do Filho. No livro de João,  5 temos: “Meu pai trabalha e eu também trabalho” –é o trabalho pelo Reino de Deus. O mundo do trabalho é lugar especial para assumir o compromisso com a transformação da sociedade inspirada pelo Reino de Deus. E se é trabalho que não contribui, deve ser denunciando como anti-Reino. Todo trabalho participa no serviço a Deus.

3- Fraternidade – Temos nas cartas de Paulo, a mensagem de que o valor do trabalho está na lei do Amor, a lei máxima do Evangelho. Na segunda Carta aos Tessalonicenses,  3, 10 consta que “se alguém não quiser trabalhar, tampouco não coma”. O apelo de Paulo é para que nunca ninguém se canse de fazer o bem e que se alguém não precisar trabalhar, que trabalhe assim mesmo, para dividir com os pobres. Paulo diz que trabalhando temos meios para ajudar os mais pobres. O fruto do trabalho deve ser partilhado para que ninguém passe necessidade.

AO PROCURAR HUMANIZAR A SOCIEDADE E A CRIAÇÃO ATRAVÉS DO TRABALHO, ESTAMOS PREPARANDO O MATERIAL DO REINO DE DEUS. O GRANDE FIM DO TRABALHO HUMANO É CONSTRUIR A NOVA HUMANIDADE: cuidado, solidariedade, justiça.

Doutrina Social da Igreja

O professor Elio Gasda nos convida a conhecer a Doutrina Social da Igreja, pois há facilidade, já que o próprio Compêndio encontra-se na Internet.

Rerum Novarum

A Rerum Novarum foi publicada na época da Revolução Industrial, século XIX, contexto em que o pobre e o mundo do trabalho continuam conectados, assim como estavam no tempo de Israel e tempo de Jesus. O capitalismo continuou o processo de reprodução de trabalhadores pobres.

Dentro deste contexto, a Rerum Novarum, que  é de 1891, vem para defesa dos trabalhadores. Em sua Introdução, assinala muitas questões da conjuntura da época.  O Papa Leão XIII, neste documento traz uma defesa do diálogo entre as classes sociais e se oferece para conciliar ricos e pobres. A Rerum Novarum  foi usada na defesa dos direitos trabalhistas, por exemplo: se opõe a trabalho infantil, defende proteção diferenciada para as mulheres, defende que o salário seja justo e suficiente para o sustento, defende previdência social, seguro saúde, política de emprego e renda e outros direitos para garantir o futuro da família.

Laborem exercens

Em 1981 foi publicada a Laborem Exercens para comemorar os 90 anos da Rerum Novarum, por João Paulo II.  O trabalho é apresentado como chave da questão social. Identifica a raiz do problema, que vem a ser a inversão economicista, que Marx chama de alienação, ou seja, a coisificação do trabalho e do trabalhador, a transformação do trabalho em mercadoria, submetido à lei da oferta e procura. Fica muito próximo, o pensamento de João Paulo II com Marx. Essa inversão começa com a Revolução Industrial, que gera o principal conflito da nossa sociedade contemporânea , que é o conflito do mundo do capital com o mundo do trabalho. João Paulo II diz que não há outra possibilidade de superação deste erro, desta, inversão, se não se introduzem mudanças, tanto no campo teórico, como na prática. Mudanças na linha da primazia do trabalho humano sobre o capital., devendo o centro de reflexão ser a pessoa, o ser humano que vive do seu trabalho, e que é criado à imagem e semelhança de Deus. Por isto, temos a frase de João Paulo II: “O trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho”. Aprofunda-se aí, dois sentidos do trabalho: o sentido objetivo e o sentido subjetivo.

O sentido objetivo são as máquinas, tecnologia, propriedade, capital. O sentido subjetivo é o ser humano, como imagem de Deus, dotado de subjetividade. Essa imagem de subjetividade também brota de Cristo, que sendo Deus,  se tornou semelhante a nós em tudo, estando em sua vida no mundo do trabalho. Esse sentido subjetivo leva à primazia do trabalho sobre o capital. O capital é fruto do trabalho. Aí reside a fonte dos direitos.

Papa Francisco

  • Vínculo do trabalho com a ecologia integral. Laudato Si deixa claro que o mundo do trabalho é parte da solução da crise ambiental; não é parte do problema. No discurso aos trabalhadores em Gênova, em 2017, destaca que o trabalho é prioridade humana, portanto prioridade cristã. Locais de trabalho são locais do povo de Deus. As reuniões que se fazem nos locais de trabalho são tão importantes quanto as reuniões que acontecem nas paróquias. Trabalho não é só instrumento para sobrevivência, mas é parte essencial da existência humana. Sem trabalho não há dignidade. É o centro de todo pacto social. É importante o tempo do descanso, pois assim não sendo, é escravidão. O mundo que não conhece o valor do trabalho não entende Eucaristia.
  • Outra economia – A chamada economia de Francisco e Clara. Economia é espaço de troca de valores. Tem outras formas de trocas e redistribuição mais humanas do que esta que temos, formas que tenham como prioridade a vida, que possam traduzir em termos econômicos, o princípio ético, colocando as pessoas no centro. Um modelo de economia mais humano. Segundo Papa Francisco, as crises no mundo do trabalho são opções que se fazem na economia e na política. Assim, a solução é a formação política do trabalhador: todas as lutas pelos direitos são doutrina social da Igreja em ação. Portanto, terra, teto e trabalho são direitos sagrados. Infinitas atividades realizadas pelos mais pobres são sinais de resistência. É preciso lutar por outro mundo do trabalho.

Três ideias da Doutrina Social da Igreja para nos inspirar

  • Prioridade da pessoa sobre o capital
  • Trabalho como direito humano. Lutar pelo direito ao trabalho e por direitos já conquistados. Sindicatos e movimentos são expoentes para isto: as lutas por justiça social.
  • Solidariedade como resistência. Na Fratelli Tutti, temos que: Solidariedade é pensar na prioridade de vida, das pessoas sobre os bens; expressa mais do que gestos esporádicos; é lutar contra as causas estruturais da pobreza, contra a negação dos direitos trabalhistas.

Caritas in Veritati

Papa Bento XVI  elaborou a Caritas in Veritati, que em seu nº 63 trata sobre a ideia do Trabalho Decente. Trabalho que seja expressão da dignidade essencial de homens e mulheres. Trabalho decente implica buscar raízes na espiritualidade cristã.

Cristão é seguidor de um crucificado. E nessa história atual nossa de luto e lutas, Deus continua trabalhando junto a nós. Cristão não pode se deixar vencer pelo sistema. Precisamos estar sempre aprendendo de Jesus, a semear e acreditar no processo de mudanças. Como diz o Papa Francisco: mudança de estrutura acompanhada de conversão de atitudes. E o que move os cristãos para essas mudanças são os rostos. Não se amam ideias, amam-se pessoas. Nas vítimas do sofrimento e exploração é preciso ver a presença de Jesus. As vítimas são a carne de Cristo.

Texto de Antonia Carrara | PO Santo André-SP

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