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Módulo V – Organização da classe trabalhadora

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Maria de Lourdes Alves da Silva – Secretária de Políticas sociais na Federação dos Bancários de São Paulo

Estamos em uma conjuntura incerta, inclusive em relação ao emprego. Muito recentemente, foi feito um twittaço contra a exploração no Banco Itaú e a palavra de ordem colocada foi: “Sem emprego não há futuro”. Na Pastoral Operária falamos muito sobre a diferença entre emprego e trabalho. Hoje em dia temos muito trabalho na sociedade, realizados de várias formas, como por exemplo, o trabalho doméstico não remunerado, a organização em todos os setores, os informais. E a quantidade de pessoas com vínculo empregatício tem diminuído muito. A categoria bancária perdeu muitos postos de trabalho nos últimos 10 Anos. E os trabalhadores que ficam no local têm que dar conta de todas as metas, todo assédio, toda opressão. E o que acontece na rotina bancária influencia muitos outros setores: comércio, transportes, aparato público etc…

Desigualdade não é normal

                A palavra Sindicato, no Brasil, é uma palavra marginalizada. Eu sou marginalizada, por ser uma mulher sindicalista. Nordestina, moradora da periferia do ABC, São Paulo. Mas,  tenho muito orgulho de fazer parte da construção desta história. Sou filiada a um Partido, o PT, participei da Pastoral da Juventude, depois da Pastoral Operária, que foi de onde tirei a motivação para a participação no Sindicato. E contribuir para que a sociedade mude, porque a desigualdade não pode ser normal. Quando vivemos com Jesus Cristo, temos todos e todas como irmãos e irmãs, dentro da espiritualidade. Não pode ser normal vermos um vizinho passar fome; não é normal toda a violência sofrida pelas mulheres; não é normal a violência contra o povo negro no nosso país. Não é essa sociedade que a gente quer.  E cada um atua da sua forma para alcançar as mudanças. E o que não falta no Brasil é movimento,  coletivo para se participar, a  fim de mudar a sociedade.

                A luta das/os bancárias/os

                A categoria das/os bancárias/os tem hoje cerca de 465 mil trabalhadoras/es. O sindicato da base de São Paulo, Osasco e região tem 1/3 da categoria nacional. No entanto, os/as que trabalham no sistema financeiro são muito mais: são milhões de pessoas. Pessoas com formação, com MBA que promovem lucros para o sistema, mas que não têm um retorno para valorizar seu trabalho.

Quando fazemos greve, somos xingadas, mas eu tenho certeza de que estou no caminho certo. A luta é constante. Mesmo na pandemia, continuamos com atendimento virtual: para jurídico, saúde e outras necessidades da categoria. A Convenção coletiva tem 71 cláusulas de direitos conquistados. E lutamos diarimente para mantê-las. E mantivemos apesar da Reforma trabalhista. Falar de sindicato significa participar de uma luta coletiva, com vários sindicatos,  11 federações e uma confederação. Somos filiados à  CUT  e a Union Golbal  que é um movimento internacional. Isto para termos forças nas lutas, desde o território que é o município, até o âmbito nacional e internacional. E assim, garantir nossos direitos, porque só ter Constituição Federal não é garantia de termos os direitos praticados no dia a dia.

A categoria bancária leva sua metodologia de luta para outras entidades. Temos um comando nacional que negocia, representa a categoria e se não consegue vitórias nas negociações, vamos à greve. Realizamos Campanha nacional para manter as negociações ativas e vivas.  Desde março 2020, 70% da categoria foi trabalhar em home Office.  Fazemos Campanhas de arrecadação de alimentos e distribuição de marmitas todos os dias. Também arrecadamos absorventes higiênicos, para dar dignidade às mulheres carentes, inclusive com debate na Câmara de vereadores/as de São Paulo, para transformar essas arrecadações em projeto de lei, para que todas as mulheres tenham acesso a absorventes. Agora, com bandeira unificada com outras centrais sindicais, estamos na luta para dizer e mostrar que este governo não serve para nós: é genocida e contribuiu com o final da vida de mais de 500 mil pessoas.          

Vivencio uma espiritualidade ecumênica.  Acredito que Deus me coloca nos lugares onde Ele acha que eu tenho que contribuir com a luta: seja no partido, seja na pastoral, na Igreja. E no Sindicato tenho meu papel. Em 2009 vim para direção da federação filiada à CUT.  É meu primeiro mandato como Secretária de Políticas sociais na Federação dos Bancários de São Paulo.  Acredito que temos direito à Justiça social, emprego e renda. E muito mais… O capitalismo não nos serve. Queremos outro sistema, que nos permita vida com dignidade.

Douglas Heliodoro- Conexões Periféricas-RP, coletivo de Jovens de Rio das Pedras, Rio de Janeiro

Somos sujeitos históricos e o trabalho é uma marca histórica fundamental.  Possibilita a relação entre o ser humano e natureza. E pelo trabalho nos tornamos humanos, um ser sócio cultural. Quando vemos 15 milhões de desempregados, 6 milhões de desalentados, que deixaram de sonhar…. E também 35 milhões de informais…  Vemos que a favela, a periferia são a concretude desses dados.  Onde se torna evidente, a situação.

Trabalho é central para a vida e também para as lutas sociais. No Conexões Periféricas estamos fazendo estudos sobre direitos trabalhistas e sindicalismo nas favelas, porque os sindicatos deixaram de estar conectados nas favelas como estiveram um dia. Em um dos encontros, um militante falou da luta em Rio das pedras, luta por moradia. Em 2017, teve a luta contra o projeto de remoções do Bispo Crivella e me deparei com ausência de juventude nessa luta. Isso traz questões: porque não se encontram os militantes mais experientes com a juventude?  Os sindicatos e os movimentos de lutas identitárias (Movimentos LGBTQIA+, antirracismo, movimentos por cultura, por lazer)que reúnem mais jovens, também não se encontram. Há conflitos? Há dicotomias? São questões que nos levam a pensar. E levam ao projeto de construção do Conexões Periféricas. Em que contexto ele surge? 

Resumindo o contexto

Em 2013, houve as manifestações contra o aumento das tarifas de transportes coletivos e o movimento cresceu muito. Essas manifestações ficaram conhecidas como Jornadas de junho. Foi onde encontei jovens de Rio das Pedras, que eu não encontrava nos  espaços de participação política de seus territórios. Em agosto de 2013 saiu o Estatuto da Juventude,  garantindo alguns direitos e políticas para a juventude, o que reflete uma conquista desse movimento nas ruas: lazer, passe livre etc…  O movimento das ruas mostrou para a juventude, sua força. Em 2016, houve a ocupação das escolas, que trouxe muitas reflexões: foram mais de mil escolas, 79 institutos e 60 universidades. Movimento com jovens trabalhadores estudantes que contribuem para sobrevivência da família e alguns responsáveis pela família. No mesmo ano de 2016, ocorreu o golpe na presidenta Dilma. E temos a reforma do Ensino Médio, à qual Gaudencio Frigotto chama de “resposta à ocupação das escolas”. Essa reforma retira disciplinas como Sociologia, Filosofia… e dirige o ensino para o ensino técnico profissional, tendo um desmonte da mobilização que os jovens fizeram e que os levava a conhecer sua própria força. Vem a reforma trabalhista, que se configurou como golpe também.

Hoje temos contra nós, a estratégia da terceira via, que é uma estratégia do capital frente à organização da classe trabalhadora, com objetivo de apaziguar e dirimir conflitos de classe, amenizar as lutas.  Estratégia que pretende levar a uma conformação direcionada para o trabalho simples, mais precarizado e para a não-participação nas lutas. Há uma cooptação nas favelas para a lógica do empreendedorismo. Os jovens brigam por editais, dentro da lógica da parceria e não da aliança de classes. São jovens que  precisam do sustento e essa  terceira via para capturar a juventude tem dado certo, amortece a luta. E…diante do número absurdo  de jovens desempregados,  entram com a mentira do empreendedorismo.

Foi no contexto de 2013 que montamos um grupo no Facebook e fomos juntando  pessoas. E fundamos o Conexões Periféricas em 2017. Com oficinas de arte, um cine clube e nos articulamos com movimento de moradia.

Como aprendemos a lutar?

Aprendemos a lutar na luta: por moradia, contra a fome, pela vacina, contra o genocídio da população negra, na luta das mulheres …

E duas ferramentas fundamentais são: educação popular e comunicação popular( articulação de pesquisadores acadêmicos com a galera que começa a se organizar). Fundamental também é  unificar as lutas, sem negar as especificidades de cada uma.

Texto: Antonia Carrara – GT PO-SSB

 

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