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Campanha da Fraternidade 2022 e a educação

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Campanha da Fraternidade 2022 e a educação

“Fala com sabedoria, ensina com amor” (CF 2022).

“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Paulo Freire

Campanha da Fraternidade 2022 e a educação

Por: Alessandra Lazzari e Clarice Dal Medico – Pastoral Operária do RS

A Igreja do Brasil debruça-se sobre um tema de extrema relevância. Convoca-nos a refletir, rezar, meditar, dialogar e agir em defesa da Educação para todos. A Campanha da Fraternidade 2022 (CF) nos convoca a conversão para um novo caminho em que se encontra a formação integral da pessoa humana e uma profunda humanização para que ninguém seja deixado de fora, excluído do processo do aprender, do formar-se, de ter acesso ao ensino formal escolar. Vale aqui ressaltar que é a terceira vez que a CF trata do tema, evidenciando tamanha é a relevância da Educação. Ensinar e falar com amor e sabedoria é o centro nesse tempo quaresmal e do ano que está começando.

A formação escolar é de responsabilidade do Estado, um direito inalienável previsto na Constituição Federal no seu artigo 205 que afirma que

A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Diante desse direito sentimos na carne o quanto o estado brasileiro peca ao deixar milhares de crianças e jovens sem acesso a uma educação para todos, integral, de qualidade e acolhedora. No Rio Grande de Sul o abandono escolar e a falta de investimento na política educacional que garantam o direito constitucional são assustadores. São milhares de jovens que não concluem o Ensino Médio anualmente e que aumentou com a pandemia.

A resposta dos governos, federal e estadual, à juventude e à sociedade é o fechamento da modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e o “Novo Ensino Médio”, que de novo não tem nada, pois é uma proposta construída sem a participação dos estudantes, dos pais, dos profissionais e da comunidade. Além disso, retira carga horária e a obrigatoriedade de muitas disciplinas fundamentais em todos os anos do Ensino Médio para a formação humana, como Arte, Educação Física, Sociologia, Filosofia, História, Geografia, Biologia, Física e Química, e propõe uma formação para o trabalho sem uma relação fundamentada na realidade e com o desenvolvimento do país.

Soma-se aos problemas educacionais a precária estrutura física e pedagógica das escolas, a fata de formação de qualidade par os servidores em geral; os salários que não são suficientes para dar conta do mínimo necessário para a sobrevivência; as jornadas de trabalho exaustivas, que se duplicaram ou triplicaram com a pandemia; a campanha exacerbada que deprecia e desvaloriza os profissionais que trabalham na escola – professoras (es) especialistas e funcionárias (os) dos diversos setores – feita por diversas autoridades públicas; o descaso generalizado da política pública implementada pelos governos de linha neoliberais que entendem a educação como gasto e não como investimento.

Entre as principais consequências da forma de tratar a educação como mercadoria, está a privatização do serviço – quem tem dinheiro para pagar terá acesso ao estudo; a piora das condições de trabalho – os contratos de trabalho e a terceirização na maioria das situações apresentam salários baixos, com poucos ou nenhum direito trabalhista; e o aumento do adoecimento dos profissionais, levando-os ao afastamento do trabalho, com destaque para as doenças mentais, como a depressão.

Essa dura realidade da escola pública e das (os) trabalhadoras (es) da educação no RS está interligada com as ações da educação em nível nacional. Vivenciamos no nosso país um momento histórico de desprezo e de deboche ao conhecimento. Desqualificar o saber e a ciência virou “moda” e o povo, na maioria vezes, recebe tanta informação, se vê perdido com essa proposta de embrutecer e não buscar o saber, sem tempo para checar a veracidade das coisas, refletir e buscar sua autonomia através do estudo.

Diante desse contexto, a CF traz o tema da educação, tão caro para todas (os) para a reflexão e convida à ação. A educação pública é um direito de todas (os) e a escola deve ser um dos espaços de desenvolvimento e de formação integral das crianças, adolescentes, jovens e adultos. A escola pública também é espaço que nos constituímos enquanto sujeitos livres, históricos e construtores de nossa própria história. Portanto, lutar em defesa da Escola pública, defende-la e exigir do governo políticas eficazes é missão de todos nós.

O Papa Francisco nos impulsiona ao amor, ao acolher e ao saber. Por isso, o convite é para participar e agir coletivamente, em grupos e em movimentos na nossa comunidade. Que sejamos fontes de luta e de defesa do conhecimento, da escola pública, do trabalho fonte de dignidade, do acolhimento, da valorização de todas as famílias que colocam as (os) filhas (os) nas escolas públicas e nelas colocam seus sonhos e expectativas. Desse modo, sejamos impulsionadores da valorização das (os) profissionais que nela trabalham e lutadores da educação para todas (os), que garanta a formação para vida fraterna e cidadã, inspirados no patrono da educação Paulo Freire. Caminhemos juntas (os), trabalhadoras (es), iluminadas (os) pela Palavra, tendo Cristo como referência, vivendo profundamente o amor ao próximo.

Texto publicado na Revista Online do Regional da CNBB do Rio Grande do Sul.

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