Início Destaques Dom Claudio Hummes, companhia, compreensão e apoio

Dom Claudio Hummes, companhia, compreensão e apoio

618
0

 

Por: Jardel Lopes | 05 de Jul 2022

Dom Claudio Hummes foi um dos bispos presentes na Pastoral Operária, de modo especial na primeira década. E ele revela como essa presença o ajudou a definir seu projeto de episcopado. “Meu encontro com a Pastoral Operária constituiu-se numa das experiências pastorais mais determinantes do meu ministério de bispo”, disse Dom Claudio, na ocasião dos 10 anos da PO.

Dom Claudio integrou desde início a Comissão Nacional da Pastoral Operária, como Assistente na Executiva Nacional, que na época chamava “Comissão Pastoral Operária”. Nos relatórios das assembleias nacional encontra-se várias menções à presença de Dom Claudio. “Descobri na Pastoral Operária o valor, a capacidade, a coragem e a dedicação, muitas vezes heróica, dos militantes da classe trabalhadora, e no caso, dos militantes cristãos em especial” (…) fique convencido que a Igreja deveria confiar muito mais nesses militantes, acolhê-los e animá-los nesta como que dupla fidelidade e pertença: o serem trabalhadores e o serem cristãos necessariamente ligados também a uma comunidade cristã local”, disse Dom Claudio.

Sua presença em meio a classe trabalhadora é reconhecida entre os militantes, como Sebastião Marcial, da PO de Santo André-SP que declara: “gratidão pelo apoio para com a Pastoral Operária, pelo incentivo à que fossemos sempre adiante. Gratidão por ter exercitado a escuta sobre a realidade dos trabalhadores/as. Guardo no coração nossos encontros entre a executiva da Pastoral Operária ABC, contigo”.

Para a militante da PO, Antônia Carrara, Toninha, da Diocese de Santo André, onde Dom Claudio foi bispo, falar de Dom Claudio é lembrar que “ele olhou para os/as trabalhadores/as em luta e compreendeu que tinha que ficar junto. Ele compreendeu as lutas das/os trabalhadoras/es e se comprometeu em apoiar. Apoiou as lutas das/os trabalhadoras/es, assumindo todos os riscos. A companhia, a compreensão e o apoio de um Bispo foram elementos que contribuíram essencialmente para o crescimento de movimentos grevistas e manifestações, que se realizaram principalmente na região do Grande ABC, mas que repercutiram em todo o mundo.  Este crescimento promoveu novas estratégias, que por sua vez, geraram conquistas históricas para a classe trabalhadora”.

Marcelo Dino, Coordenador da PO Santo André, na cripta da Catedral da Sé, com a homenagem da PO.

E sobre caminhar junto, compreender e apoiar os/as trabalhadores/as, Dom Claudio escreve: “mas descobri também o quanto é exigente e inclusive arriscado esse caminho da Pastoral Operária: o risco de não ser suficientemente fiel, seja aos trabalhadores, seja a Igreja; o risco de não integrar equilibradamente a fé,  oração e a ação sindical, popular e política; o risco de não suportar tensão dialética criativa entre a autonomia e a comunhão no interior da Igreja, pois os militantes na qualidade de leigos cristãos, tem direito a uma adequada autonomia em sua atividade apostólica, mas por outro lado, precisam manter-se em profunda comunhão com a comunidade cristã local e universal”.

Para o Cardeal Dom Claudio,

“a evangélica opção preferencial pelos pobres deve integrar uma opção pelos trabalhadores”. E por isso, o nascimento da Pastoral Operária, “se revela como apelo de Deus à sua Igreja no Brasil”.

Nesses dias, por ocasião da sua páscoa, vários jornais estão destacando o seu compromisso com a classe trabalhadora, no decorrer do magistério episcopal. O Jornal “O São Paulo” traz no título “Dom Cláudio acolheu a causa operária em meio à ditadura militar” e destacou: “nos três explosivos anos de mobilização operária, Dom Cláudio Hummes abriu as portas da Catedral de Santo André para assembleias, presidiu missas com a participação dos grevistas e posicionou-se corajosamente contra as demissões dos manifestantes”. Já o Jornal do “Sindicato dos Bancários do ABC”, publica cardeal dos operários, do ambiente e da democracia e destacou que Dom Claudio “é lembrado por sua atuação durante as greves dos metalúrgicos do ABC”.

Além do envolvimento compreensivo, atento e apoio a classe trabalhadora e suas lutas, Dom Claudio também se dedicou para a defesa dos povos indígenas e comunidades tradicionais, de modo especial da Amazônia. Um grande influenciador do Sínodo para Amazônia, em 2019, do qual foi relator e participou ativamente do processo de escuta na Amazônia. Foi presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cargo que exerceu até março de 2022. Em 2014, ajudou a criar a Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), da qual foi o primeiro presidente. Até março de 2022, presidiu a recém-criada Conferência Eclesial da Amazônia (Ceama).

Cardeal Dom Claudio Hummes deixa um legado nas lutas históricas do seu tempo: desde as lutas operária à luta ambiental e dos povos da Floresta. Bendito seja Deus pela essa vida profética na Igreja do Brasil, de modo especial também na Pastoral Operária. Rogamos a Deus que acolha Dom Claudio na Gloria, na morada justa, na plenitude dos Santos para interceder por nós, classe trabalhadora, na incansável luta por justiça, pão e paz!

Dom Reginaldo Andrietta, bispo de Jales-SP e Referencial da Pastoral Operária Nacional, esteve presente em uma das missas de corpo presente de Dom Claudio.

 

Sua trajetória

O cardeal Cláudio Hummes, franciscano da Ordem dos Frades Menores, nasceu no município de Montenegro (RS), em 8 de agosto de 1934. Filho de Pedro Adão Hummes e Maria Frank Hummes, recebeu de batismo os prenomes Auri Afonso. Ingressou na Ordem dos Frades Menores em 1º de fevereiro de 1952, onde emitiu os primeiros votos no dia 2 de fevereiro de 1953 e professou solenemente no dia 2 de fevereiro de 1956, quando então mudou seu nome para “Cláudio”. 

Foi ordenado presbítero no dia 3 de agosto de 1958. Em seguida, enviado a Roma, ali doutorou-se em filosofia na atual Universidade Antonianum, em 1963. Também especializou-se em Ecumenismo pelo Instituto Ecumênico de Bossey, de Genebra, Suíça. 

De volta ao Brasil, foi professor de filosofia na Escola de Filosofia da O.F.M. e na Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre (RS). De 1968 a 1972, foi diretor da Faculdade de Filosofia de Viamão (RS). De 1972 a 1975, foi Superior Provincial dos Franciscanos.

Em 22 de março de 1975, foi eleito bispo coadjutor de Santo André (SP), com direito à sucessão. Em 25 de maio de 1975, aos 40 anos de idade, recebeu a ordenação episcopal, na Catedral de Porto Alegre (RS), sendo sagrante principal o cardeal Aloísio Lorscheider. No mesmo ano, assumiu como bispo titular e ali permaneceu por 21 anos. 

Em 29 de maio de 1996, foi nomeado arcebispo de Fortaleza (CE) e, em 15 de abril de 1998, foi transferido para a Sé de São Paulo, tomando posse em 23 de maio. Em 2001, foi criado cardeal pelo Papa João Paulo II, permanecendo ainda como arcebispo de São Paulo até 2006, quando então foi chamado para Roma para ocupar o cargo de Prefeito da Congregação para o Clero, onde permaneceu até ser substituído por limite de idade, no final de 2010.

Novamente de volta ao Brasil, foi nomeado presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cargo que exerceu até março de 2022. Em 2014, ajudou a criar a Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), da qual foi o primeiro presidente. Foi relator-geral do Sínodo para a Amazônia, em 2019, e, de julho de 2020 a março de 2022, presidiu a recém-criada Conferência Eclesial da Amazônia (Ceama).

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui